Prefácio

Por Pedro Chagas Freitas*

Quando o excesso está na medida certa

Só há dois tipos de obras de arte: as excessivas; e as que não são obras de arte. A arte é – tem de ser – por definição excessiva. E é só em excesso que a arte, como a vida, vale a pena. Sem excesso, a vida seria uma sequência interminável (terminável apenas aquando do derradeiro) de bocejos. Sem excesso, a arte seria uma sequência interminável de nada. E nada mais nada perfaz, não é preciso ser especialista em matemática para o perceber, nada. Rigorosamente nada.

Nada mais simples: a obra que está prestes a ler é excessiva. Extravagantemente excessiva. Excessivamente excessiva. É excessiva na substância – que agarra sexo e ternura a uma só mão e os atira, como arma de arremesso (como arma sem medo), à cara do leitor. Sim: à sua cara.

Mas esta obra não é só excessiva na substância; não: esta obra é também excessiva na voz do autor, no estilo do autor – que inventa, reinventa e torna a inventar. Sempre – e é esse o grande mérito desta deriva estilística – com coerência estranhamente real. Uma coerência caótica que faz com que o leitor abra e feche a boca vezes sem conta. E, realce-se, sem ser para bocejar.

Não direi, aqui, que esta é uma obra-prima. Mas também não direi, desengane-se quem o sequer ventilar, que esta não é uma obra-prima. Porque as obras-primas, qualquer burro o sabe, não são construídas por quem as cria – mas sim por quem as vê e sente e agarra e devora e faz delas aquilo que bem lhe entender.

Digo apenas, assim, para se deixar levar pelas linhas e letras e brincadeiras e sobes e desces e desces e sobes sem parar. Digo ainda para não temer o que não domina, para tentar dominar o que lhe foge da mão. E ainda mais: ainda lhe digo que deixe que seja o sexo, o do cérebro e não o do corpo, que leia esta obra. Leia esta obra com tesão. É esse o meu pedido principal: leia esta obra com tesão. Vai ver que ela não o vai deixar ir abaixo. É sempre assim, com um obsceno tesão de cérebro, que a arte se faz.

É sempre assim, enfim, quando o excesso está na medida certa.

*PEDRO CHAGAS FREITAS é escritor, orador e professor de escrita. Será um dos oradores principais da ISCS Conference, uma das mais importantes conferências mundiais na área do Retalho – que decorrerá em Abril de 2012 em Berlim, Alemanha, e que reunirá mais de 700 altos quadros de algumas das maiores multinacionais do Globo. Tem 17 obras publicadas, entre ficção, filosofia, crónica, biografia, história e humor. É um fabricante de ideias. Liderou redacções e equipas criativas. Criou artigos de jornal, guiões, anúncios, slogans e programas de rádio. Foi nomeado para vários prémios literários de nível nacional. Desde 2001 que é coordenador de sessões de escrita criativa um pouco por todo o país. Tem vindo a coordenar e a levar ao terreno palestras, seminários e workshops um pouco por todo o país. É solteiro em comunhão de bens.


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