No Silêncio da Noite

Diogo Ferreira - No Silêncio da Noite

Foto: © Diogo Ferreira – “No Silêncio da Noite”

Esta é mais uma noite em que passamos juntos, em que ficas cá por casa mas na verdade o teu pensamento está longe, ou será o meu? Talvez seja o meu, talvez.

Gosto de te ver comigo, deitados na mesma cama, aconchegados como se o tempo lá fora não existisse; como se o nosso mundo fosse “o” mundo, e não existisse mais nada, as complicações, as discussões e as privações que me fazes sentir; sim, tu privas-me de ti, sabias?

Estás a dormir, serena, com uma respiração profunda, enquanto que eu estou a pensar em tudo isto, talvez devesse estar em paz a dormir, mas não consigo. Custa-me sentir o teu amor e saber que não é completo, que o tenho apenas em fragmentos, como se de farrapos se tratassem, uma espécie de manta de retalhos, um puzzle em que apenas tenho acesso a partes, e nunca consigo ter a visão da imagem completa.

Nunca tinha previsto isto que surgiu entre nós, eu sei que estas coisas acontecem, sei também que não são instantâneas e que é preciso que duas pessoas queiram, mas se eu a principio queria apenas diversão, um “one night stand”, agora quero mais, quero-te completa apenas para mim e todos os dias, coisas que não é passível de acontecer, visto que as regras são outras; nestas não está contemplada tal coisa.

Continuas impávida, pelo menos esta noite que tens livre, em que és só minha, e eu irrequieto com os meus pensamentos vorazes que me dizimam o sono e me fazem permanecer acordado a olhar o vazio, o silêncio da noite, e a pensar como seria se tudo fosse diferente; se nos tivéssemos cruzado de outra forma, se as nossa vidas fossem livres e se na verdade quiséssemos mais do que aquilo que temos.

Penso que fantasio algo que quero, e ao mesmo tempo que não aguentaria ter; o que temos é o acertado, caso contrário estaria a fazer o mesmo com outra pessoa que não tu, e tu provavelmente com outro que não eu.

Hoje inventamos que estamos numa viagem de negócios, num país distante, quando na verdade estamos nesta casa que alugamos só para nós, no centro de Lisboa, a que chamamos carinhosamente “o nosso mundo”.

Esta é só mais uma noite de traição, tanto minha quanto tua; sim, porque cada uma das nossas relações não sonha que somos amantes, que os traímos há mais de dez anos e que quase já tivemos um filho juntos.

É um mundo cruel este em que vivemos, ou talvez não, provavelmente apenas amamos de uma forma diferente dos demais, gostamos deste formato, da equação e recusamos qualquer julgamento de terceiros. Ninguém sabe da nossa relação. Ninguém.

“O amor é fodido” – dizem. Eu prefiro dizer que o amor tem contornos que por vezes a maioria das pessoas critica, prefere não entender, ou talvez tenha inveja, ou receio de fazer algo similar.

Já nós preferimos “sexoviver” nesta bolha, na penumbra da noite, este nosso amor marginal intenso – suspiro.

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