Olhares Cúmplices

Olhares Cúmplices

Foto: © Paulo Mendonça Photography

Foi naquele final de dia, naquele local que esbarramos – sem aviso prévio – mas que nos fez entreolhar-nos e sem serem necessárias palavras conversamos durante uns segundos, que pareceram eternos – como se o tempo tivesse parado.

Talvez fosse atração, uma coisa de fim de Verão, tão cliché que à partida tem um fim anunciado; mas não, não foi isso que aconteceu. Vencemos a timidez e sentamo-nos um ao lado do outro, sorriamos e olhávamos o mar lá ao fundo. Ficamos assim sem que conseguíssemos articular uma única palavra até que um de nós conseguiu fazer com que saísse um som audível – um olá -, e o outro respondeu.

Dois desconhecidos, ali, quando já tudo estava deserto a descobrir o outro, com defesas e ao mesmo tempo com ânsia de mais; com vontade de saber quem seria aquela alma que estava ali. É estranho quando uma sensação à qual não estamos habituados nos invade e faz-nos perceber que existe mais do que mera atração; sim, gostar do invólucro é bom mas sem substância joga-nos no vazio, que já previamente sentíamos.

A noite teimava em instalar-se, a nossa conversa decorria como se estivéssemos combinado aquele encontro, naquele local, àquela hora – cliché à parte – de uma forma tão pouco comum que nos deixava desconfortáveis.

O sorriso disfarçado, a satisfação de estar apenas ali, a contemplar o outro, a iniciar um percurso que um dia podia ser a dois, assustava e ao mesmo tempo parecia fazer todo o sentido do mundo, mesmo com uma dose de “bizarro”.

Os olhares cúmplices permaneciam inalterados, a vontade de ir embora não chegava e apenas tínhamos vontade de estender o dias para além das vinte e quatro horas. Como poderíamos conseguir estar a falar de duas vidas, um ao outro, sem conhecimento prévio, sem rede, jogados ao abismo que era o desconhecido; ao mesmo tempo isso impelia-nos um para o outro, inexplicavelmente.

Decidimos levantar-nos, demos as mãos e caminhamos à beira mar, a brincar com a espuma da rebentação das ondas, como dois miúdos, e sorriamos. Este era um sentimento que havíamos perdido há demasiado tempo: cumplicidade – algo que não se parametriza, mas que acontece sem se anunciar.

Quando parámos e olhámos um para o outro sabíamos que tínhamos que ir embora, para outra paragem; aquele não era um adeus, mas sim uma pausa, um até já.

Os dias somaram-se, bem com a nossa vivência rumo a parte incerta, sem parametrizações.

Amanhã será outro dia, depois outro, outro e outro mais. Passo a passo rumo a algo que ainda não conseguimos contextualizar.

Será paixão? Atração? Amor verdadeiro?

Certamente é tudo isto, mas ainda não sabemos; o livro da vida é uma incerteza que nos deve impelir a aproveitar cada dia e a sermos felizes: somos!

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