Tempo

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Existe uma história incontável à medida que olho para o relógio; cada segundo que passa deixa-me na ânsia do próximo. Um movimento perpétuo que teimo fixar, na expectativa que aconteça algo que me faça seguir em frente, um trigger, algo. Sei que essa mesma força está dentro de mim, ao meu alcance, afinal a decisão final é, e sempre será minha, mas porque não poderá ser nossa?

Os demónios tendem a assolar-me a mente, a fazer-me servo de um deus menor que não reconheço mas que sirvo, como se me tivessem aprisionado ad eternum. Tudo não passa de uma vivência em reclusão do mundo, e ao mesmo tempo de mim mesmo, em simultâneo com o eterno desejo da partilha bilateral e consensual que não chega. Parece-me tudo uma tarefa de Golias, algo que só um ser sobrenatural tem a capacidade de combater e vencer: vencerei algum dia? – Esta é uma pergunta que me faço, e à qual não escuto qualquer resposta.

Olhas para o evidente, mas esse mundo é demasiado complexo, talvez até demasiado denso para uma leitura na diagonal; possivelmente é necessária uma leitura mais intensiva, com um dicionário inexistente, um bloco de notas para tirar apontamentos invisíveis e impercetíveis. Será possível um simples olhar para um relógio que não para, porque o mundo está em permanente mudança, fazer um ser humano entrar numa espiral de pensamentos difusos, aparentemente, e torná-lo estático? – isto deixa-me pensativo.

Num mundo em permanente mudança, por vezes demasiado rápida ser devidamente absorvida, os detalhes esvanecem-se e passam ao lado da maioria daqueles que se passeiam pelas ruas e becos de uma cidade em rebuliço. Passámos de olhar os segundos, tão preciosos, para ver apenas as horas, ou os dias in lato sensu, como se fossem estes a coisa mais importante da vida, quando os segundos são desrespeitados e relegados para o esquecimento. Cada dia que passa intensifico a minha fixação por estes, os segundos, as pequenas grandes coisas da vida que teimam em esgueirar-se pelos mais incautos, quando na verdade são uma das coisas que marcam a nossa vida de uma forma tão veemente, quase como um corte preciso de um bisturi com a mestria do melhor cirurgião que possa existir no planeta.

Esta dança entre demónios, segundos, horas, dias, e tempo perdido faz-me pensar que nos cruzamos com uma imensa multidão, dia após dia, mas até que ponto erguemos o nosso olhar e vemos quem está diante de nós, quem se aproxima sem ser anunciado e damos a oportunidade de um cumprimento bilateral, um simples olá que poderá marcar aquele segundo em que o mesmo teve lugar, o momento preciso que nos fará olhar para trás. Ou talvez correr atrás de uma promessa de exorcização que pensamos antever, com a disciplina, a força e toda a energia que conseguimos reunir para atingir a paz.

O despojo por vezes pode ajudar na eterna luta, o largar o lastro, o acessório que se mostra apenas como um peso que nos atrasa, não nos fazendo chegar ao próximo segundo em toda a sua plenitude.

Refletir sobre o que perdemos no meio da multidão, ou o que nos recusamos em não deixar de ganhar, relega-nos para um inferno interior intemporal onde entre demónios e anjos somos julgados sem hipótese de redenção. Nem sempre os julgamentos são justos, mas na maioria das vezes somos os nossos piores advogados, e vemos as nossas ações de uma forma enviesada. Porque razão os nossos conselhos resultam com os demais, sem que tenham qualquer efeito em nós próprios, como se racionalmente tivéssemos todas as respostas e soluções mas porque somos imperfeitos, e humanos, não atingimos o veredicto final, o nosso.

E pensar que isto tudo pode acontecer entre a transição de um segundo para o próximo. O pormenor, cada detalhe do movimento perpétuo pode ser a prisão ou a eterna libertação de nós mesmos.

A eterna questão é: pertencer à manada ou batalhar contra a corrente?

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