Inebriado

Sion Fullana

Foto: © Sion Fullana

Sinto-me inebriado, parece que me apoderei de uma garrafa de Cardhu apenas para mim; a sensação é de satisfação mas de um modo inexplicável, uma sensação bizarramente extasiante – parece que entrei noutro mundo, um diferente desta realidade atroz e tão carnal.

Às vezes penso que o romance, a conquista, todo aquele jogo de sedução desapareceu, ou então entrou de tal forma em desuso que já ninguém o pratica. Tudo acontece tão rápido, tão velozmente que quando dou por mim estou numa cama, depois de ter mascado uma pastilha elástica, e sedento de me ir embora para outras paragens. Fico sempre à espera de uma certa dose de romance, de envolvimento sincero mas já não sei o que isso é – quando o encontrar saberei identifica-lo?

Neste momento estou a olhar para ti, e tu para mim e sem dizermos uma palavra estamos a comunicar. Não preferes esta forma, quase telepática de envolvimento sem toque, sem qualquer tipo de ligação física, ainda que estejamos numa permanente troca de informação. Não consigo deixar de te fixar, estou prezo aos teus olhos, tu deixaste-me desarmado como à muito não me acontecia. Permaneço impávido a tudo o que acontece à minha volta, como se o mundo não existisse, e desafio-te – simplesmente com o meu olhar – a vires ter comigo, a deixares o medo de lado e entregares-te a um desconhecido: eu! – quero acreditar que vais ter a coragem necessária digna de uma heroína, que eu sei que é – és, não és?

Sorris para mim, escondes-te numa aparente timidez, que me delicia, e piscas-me o olho. Acho que não estás a conseguir resistir-me, nem eu a ti – posso parecer presunçoso, mas vais saber que não o sou – porque quero, tal como tu, deixar-me ir nesta viagem que é o enamoramento. Prometo-te aqui e agora que não vou sequer ousar em pensar colocar o pé no travão, vou deixar que o meu corpo se entrelace no teu, que tenhamos a sensação de sermos apenas um, apenas a mistura de duas almas que se cruzaram por acaso, mas não ao acaso – quero pensar assim.

Acredita que o destino, as estrelas ou algo similar – coisa que eu não acredito, mas que tu podes acreditar – nos fez “tropeçar” – e coloquei entre aspas, calma! – um no outro propositadamente com um fim especifico, embora ainda estejamos num pré-estágio que é de tal forma delicioso, como o melhor bolo de chocolate de Lisboa, ou do mundo; sim, gosto de bolo de chocolate, e de imaginar como será saboreá-lo com o teu sabor – imagino-me a saborear-te, confesso.

A esta distância quase que consigo sentir o teu cheiro, a tua essência misturada com a minha numa dança digna de um Bolshoi, um verdadeiro fenómeno da natureza inebriante, e ao mesmo tempo provocante. Pergunto-me porque me fazes isto, porque me deixas nesta espera, porque me deixas inebriado e quase a chegar à loucura para te sentir, para te ter nos meus braços, só para mim.

Esta mistura inebriante de cheiros, sabores que antevejo, e quero sentir, que imagino contigo, e em mim, e que não irei deixar escapar, e jamais partilhar faz-me ficar aqui estático, a olhar para ti. Sinto-me impotente para manipular o tempo, e fazer as horas passar, saber que vais sair, olhar para mim, sorrir e inundares-me de ti, do teu ser no meu sem defesas, sem barreiras, na mais pura forma de seres quem és: tu! – é assim que imagino que te vou ter, e vou.

O romantismo pode estar fora de moda, escondido, mas os poucos de nós que o somos resistimos a tudo e não o deixamos morrer.

Vem, vem perpetuar o romantismo comigo, vens?

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