Memórias

Adriano Sodré

Foto: © Adriano Sodré

Tenho-te aqui capturada, e a mim também; nós duas e todo o esplendor das tropelias que fizemos durante todo o tempo em que estivemos juntas.

Na era digital e nós a usar-nos uma máquina fotográfica analógica: é como tu, sensual, com carisma e um sem fim de outras variáveis (leiam-se elogios) que tu bem sabes quais são – aí, se esta cama tivesse a capacidade de contar as nossas histórias; as noites loucas de paixão.

Lembro-me de uma sessão em que estávamos nuas pela casa, era verão, e tu cismaste que tinhas que fazer uma sessão fotográfica com nós as duas em pleno acto sexual; perdemos várias vezes a máquina, no meio do arfar de cada uma de nós, da vontade que tínhamos de nos possuir uma à outra.

O tempo passou tão depressa, as férias do ano passado, em que nos isolamos do mundo, fotografamos o nosso mundo e temo-lo em suspenso nestes rolos; recusamo-nos a clicar no botão “play” da vida; preferimos deixar a prova do crime ali, protegida, dentro dos cilindros pretos. Mostrar a intensidade do nosso amor, a paixão que sentimos, e continuamos a sentir, seria como uma invasão de privacidade – será que temos de fazer um curso de fotografia, para depois revelar as fotos?

A nossa paixão, a vida, tem sido como um permanente orgasmo, em dose múltipla, sem parar; respiramo-nos como se vivêssemos no mesmo ecossistema, como se o fossemos um ser uno.

É difícil para as pessoas, pelo menos para a maioria, entender este amor entre nós; um amor entre duas “miúdas crescidas” que sabem o que querem da vida, e de que forma: queremos o nosso mundo só para nós, e partilhá-lo com quem nos apetecer.

Hoje de manhã fizeste-me vir de uma forma tão intensa, adoro quando usas a tua língua tão criativamente, como se o saber da mesma fosse inato e cada milímetro do meu corpo, perdido pelo teu, fosse a razão da nossa própria existência – noite após noite, rumo a um novo dia vejo-te mais nítida na minha vida; sim, eu sei que tu me vês de igual modo – a cumplicidade é algo que não nos foge, nem fugirá.

Brincamos com os rolos de uma forma provocatória, mesmo erótica, a roçar o pornográfico e rimos que nem umas perdidas; parecemos duas miúdas, na flor da idade, mas esse tempo já lá vai. Esse foi um tempo que remonta há muito tempo, embora para nós a sensação é que foi no verão passado.

Hoje, passados quase dezoito anos, mantemos o mesmo fulgor, a “lareira” que não para de nos aquecer o coração, e outras partes do corpo, de uma forma tão genuína e cúmplice que o mundo continua a mover-se ao nosso ritmo.

As memórias, o amor ao longo do tempo é mais do que “uma coisa bonita”: uma parceria sólida, mesmo que tenhamos enfrentado a ira dos titãs fez-nos mais fortes, com uma capacidade de enfrentar o desconhecido sempre com um sorriso.
Hoje é a data do nosso aniversário, a minha e a tua, e. – sorrimos, não precisamos de mais palavras. Está tudo dito.

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