O Quarto

Adriano Sodré - interludio 4

Foto: © Adriano Sodré – “Interludio 4”

Olho par ti prostrada nessa cama, nua, numa ausência de ti mesma; pareces tão perene, como se já tivesses partido para outras paragens, mas estás apenas a dormir. A tua respiração, os movimentos contorcionista que empreendes, sem que saibas que os fazes são uma das razões que me fazem ficar.

Para mim és a minha acrobata, a perfeição de uma deusa, com a mistura de um ser demoníaco que me aprisionou – já passaram dois anos -, e me faz não saltar da janela; quer dizer, que me impele a não sair por aquela porta e ir procurar outro produto sucedâneo. Prefiro pensar que és a tal; é-me mais fácil, e dá-me menos trabalho.

O sexo é estupendo, és das poucas mulheres que me consegues satisfazer, embora este meu olhar, os meus pensamentos permaneçam turvos, como se fosse um mero prisioneiro do teu sexo, das valentes fodas que damos até ao raiar do dia, sem que eu consiga sentir o mais ténue sentimento – serás o meu objeto sexual: és o meu sex toy? – nunca te irei perguntar isto.

Estou habituado à diversidade, a ter corpos diferentes todas as noites no lugar onde estás agora; ainda assim, o teu tem permanecido este tempo todo, sem que eu sinta algo em relação a ti – embora te use e minta desde o primeiro dia -, e sem te trair; sim, nunca te traí, por mais estranho que isso possa parecer. É difícil sequer acreditar em mim mesmo, no meu corpo que não anseia outro objeto para colmatar a permanente tesão que me invade, e me faz querer sexo: o teu!

Já pensei que és mais do que uma peça no meu puzzle; já pensei que podia ser feliz contigo; enfim, já tentei convencer-me de tantas coisas e que apesar disso olho-te e não me revejo em ti – combato a ideia de gostar de ti, de ter sentimentos.

Às vezes penso que te amo, mas nunca o disse: por baixo desta “armadura” existe um receio de ouvir um “não” – eu não estou habituado a “nãos”, sempre tenho tudo o que quero.

Acorda e diz que me amas, dizes?

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