Abandonado

Paulo Dioni - Lost in time

© Paulo Dioni – Lost in time

Perdi-me no teu tempo, aquele em que me deixaste sem rumo, naquele fim de tarde, uma morte anunciada para uma nova vida. Sim, disseste-me apenas que eu não te interessava para nada, que não sentias qualquer tesão por mim e que tinhas encontrado uma nova vítima – eu nem sabia que tinha sido tal coisa na tuas vida -, alguém que te fode incessantemente e não é lamechas, nem tem todas as particularidades que o amor trás consigo: o carinho, a parceria, a cumplicidade – disseste-me que parecia um maricas; que querias ser possuída sem tretas.

Sinto-me atónito, sem reação: os membros estão entorpecidos, como se tivesse bebido atrozmente, e o pensamento divaga entre o passado e o presente – parece que estou a ter uma experiência extracorporal.

Sei que as horas vão passar, que esta sensação de vazio vai desaparecer como um castelo na areia, levado pelas vagas do mar rumo a parte incerta – eu sei disso: sim, eu sei!

O raio desta dor que sinto agora, neste preciso momento, dilacera-me como um bisturi e esventra-me as entranhas; ainda assim, ponto a ponto, coso-me – a sangue frio, para doer mais – e a cada ponto que dou em mim, a cada laçada, é um segundo, um minuto que passa deste o choque frontal com o abismo: tu!

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